Entrevista com Stefanie sobre Bunmi, um dos melhores discos de 2025: um álbum que incomoda o poder ao enfrentar racismo, privilégio e silêncio com palavra afiada e consciência crítica.
Stefanie em linha: Spotify, Instagram
Entrevista com Stefanie
Desconforto
Trago desconforto, cês quer viver no conforto e nóis, quer uma vida digna
O que significa, para você, esse direito de incomodar? Como sustentar a força de continuar falando quando o sistema prefere silenciar ou suavizar as denúncias?
Diante de certas situações, não tem como a gente se calar, pois se calar é aceitar. Dessa forma vamos estar deixando que continuem a nos tratarem de uma maneira que nos prejudica e nos desrespeita. O direito de incomodar é a minha forma de protesto. O rap é uma forma de protesto, assim como muitas pessoas vão pra rua e fazem greve para reivindicar os seus direitos lutando por melhorias.
“Desconforto” nasceu da indignação de ver diariamente várias pessoas sofrerem o preconceito por conta da cor da sua pele, ou por não serem o “modelo padrão” de estética imposto pela sociedade, e sendo assim, eu como uma representante do Hip-Hop, uma MC, que usa o microfone como instrumento, acho fundamental trazer temas que façam as pessoas refletirem e se questionarem.
“Crianças educadas por adultos: cuidado!”, também de “Desconforto”: que coisas ainda se ensinam — ou se omitem — que perpetuam o racismo no Brasil? O que você gostaria que as novas gerações aprendessem com a sua música, “quebrando esses paradigmas”?
Infelizmente no Brasil muitas pessoas não se consideram negras, mesmo sendo, e preferem usar o termo “moreno”. Na infância, muitas vezes me chamavam de “morena escura”, como se ser negro, ou chamar alguém de negro fosse uma ofensa. Quando não se tem um diálogo em casa, algumas pessoas passam a se descobrir negras na rua, quando acontece alguma situação.
Infelizmente o nosso país ainda é assim, mas graças ao Hip-Hop, o rap e ao movimento negro, isso está mudando. Antigamente era muito difícil ver um adolescente dizendo que tinha orgulho de ser negro e hoje eu consigo ver pelo meu filho, nos shows que faço, a juventude se assumindo sem ter vergonha da cor da sua pele, dos seus traços e seu cabelo crespo, e esse movimento se fortalece cada vez mais. A nossa história já foi muito apagada e desvalorizada, quebrar paradigmas pra mim é reconhecê-la e saber o quão rica ela é.
Outra realidade
Os privilegiados têm prazer em ser opressor
Como você entende essa relação entre privilégio e opressão? O que você gostaria que quem vive com privilégios reconhecesse ou questionasse ao ouvir a sua música?
A ideia de que basta se esforçar um pouco mais para alcançar o sucesso é enganosa. Muitos ricos e até pessoas de classe média parecem não entender a realidade dos pobres. A concentração de renda é um obstáculo enorme para quem quer subir na vida. Os pobres enfrentam dificuldades para escalar lugares e permanecer. Ser empreendedor, microempresário ou dono de terra é um desafio constante, sem dinheiro ou herança para investir. É um ciclo vicioso: produzir, reinvestir, aplicar, trabalhar… É maçante demais!
Mas há uma saída. Algumas pessoas ricas podem ser parceiras e colaborar para uma sociedade mais justa. É preciso mudar a mentalidade de ‘dar esmola’ para ‘ser parceiro e colaborar’. Políticos e líderes podem criar leis e políticas públicas que ajudem os pobres a sair da pobreza e contribuir para a sociedade. Com isso, podemos reduzir a violência, o roubo e a morte. Podemos criar uma sociedade mais igualitária, onde todos tenham oportunidades para crescer e prosperar. (Nega Gizza)
Não pirar
Cuidando da minha mente
Em “Não pirar” e “Nada pessoal” você fala sobre cuidar da mente e impor limites. O que você aprendeu sobre autocuidado e saúde mental ao longo deste disco?
Aprendi que cuidar da mente é um processo contínuo e necessário. “Não pirar” e “Nada pessoal” são músicas que refletem a importância de se posicionar. Para mim, isso significa reconhecer quando estou me sentindo sobrecarregada e saber dizer ‘não’ sem culpa. Significa também ser honesta comigo mesma sobre o que me faz e o que não me faz bem. É sobre fazer escolhas conscientes de como investir meu tempo e energia. É saber o que vale a pena e o que não, e priorizar o que me traz benefícios.
Infelizmente faço parte do time de pessoas que já sofreram com crises de ansiedade e aprendi também que precisamos controlar os nossos pensamentos e não deixar que eles nos controlem.
Plenitude
Sou apenas mais uma que na dor a fé fui recorrer
Em “Plenitude” você fala sobre reencontrar a fé. Como foi esse processo espiritual? De que maneira a espiritualidade influencia hoje a sua forma de escrever e de viver?
A espiritualidade na minha vida foi um divisor de águas. Venho de uma família onde minha mãe é de religião de matriz africana, minha tia é budista e minha avó era católica, então cresci nesses ambientes. Às vezes ia para o terreiro, outras faziam daimoku e outras ia no terço ou pra igreja. Quando eu era criança, não conseguia sentir nenhuma conexão, apesar de gostar de estar nesses lugares.
Foi quando eu cresci e meu irmão ficou internado durante duas semanas por conta de um acidente de carro e veio a falecer. Foi aí que me peguei fazendo orações com a minha tia e aquilo me fortalecia.
Mais pra frente, a convite de uma amiga, recebi um convite de ir a uma igreja evangélica e lá aprendi a me conectar. Nesse período, eu descobri o que era ter fé, a fé que eu não tinha, após várias situações difíceis que havia passado. Aqui falamos muito a frase “se não vai pelo amor, vai pela dor” e foi assim que tudo aconteceu e hoje é o que me ajuda muito a me manter firme, apesar de no momento eu não fazer parte de nenhuma religião.
Fazer minhas orações e silenciar é onde encontro a minha paz. É o meu ritual sagrado. É a maneira que encontrei para conseguir tomar minhas decisões e acreditar que a solução na hora certa sempre vai aparecer.
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